Vinhos Âmbar: o retorno do tempo à taça
Por Tábita Gonçalves – jornalista de viagens e gastronomia, publisher de Sabores & Destinos
Por décadas, o mundo do vinho foi dividido quase de forma binária: branco, rosé, tinto e espumante. Mas o século XXI trouxe um quinto espectro — e, curiosamente, ele é tão antigo quanto a origem do vinho em si.
Os vinhos âmbar — conhecidos internacionalmente como orange wines — não são feitos a partir de frutas exóticas. Eles nascem de uvas brancas vinificadas com as cascas.
Ou seja: aplicando à uva branca o mesmo princípio que usualmente é usado na produção de tintos.
Essa técnica nasceu há mais de 5 mil anos na Geórgia, região do Cáucaso, onde os vinhos eram fermentados em grandes ânforas de barro chamadas qvevri, enterradas sob a terra. A diferença essencial está no método: vinhos âmbar são produzidos com uvas brancas que fermentam com as cascas e sementes, processo que normalmente é reservado aos tintos.
O resultado é um vinho de cor alaranjada, textura rica e aromas complexos, que desafia as convenções.
Com o tempo, o método foi redescoberto por vinicultores da Eslovênia, Itália (especialmente Friuli e Sicília) e, mais recentemente, França, Espanha, Chile e Brasil.
Hoje, ele é sinônimo de autenticidade e naturalidade — rótulos produzidos com mínima intervenção, sem aditivos, que expressam o terroir de forma quase crua.
Na taça, os vinhos âmbar surpreendem. Podem ter notas de damasco seco, chá preto, mel, noz, frutas maduras e especiarias. O corpo é denso, com taninos sutis, e o final, prolongado e levemente oxidativo — algo entre o conforto do vinho branco e a profundidade do tinto.
Não à toa, vêm ganhando espaço em cartas de restaurantes estrelados, especialmente aqueles que valorizam a gastronomia natural e fermentada.
Harmonizam bem com pratos intensos: queijos curados, peixes gordos, comida oriental, queijos de mofo branco e carnes brancas grelhadas. Mas o segredo está em degustá-los sem preconceito de cor ou categoria — eles pedem curiosidade, não comparação.
Mais do que tendência, os vinhos âmbar simbolizam um movimento de retorno à essência: o tempo como ingrediente, a natureza como guia e o vinho como expressão do lugar e da paciência.
Entre o branco e o tinto, há o âmbar — e, talvez, ali esteja o futuro mais poético do vinho.