Do caderno da nona às mesas de Goiânia: Lambretta Cozinha Italiana revela técnica, identidade e território.
7 de novembro, 2025Por Tábita GonçalvesGastronomia
Por Tábita Gonçalves – jornalista de turismo e gastronomia, publisher de Sabores & Destinos
Há aberturas que chegam com discurso, outras com estética, e algumas com conteúdo — o Lambretta Cozinha Italiana estreia em Goiânia com este último elemento no centro da narrativa. Localizado no Setor Marista, o restaurante assinado pelo chef Edd Pereira não replica ícones italianos: ele honra raízes.
No ambiente, nada é padronizado. Os móveis carregam história: vieram de garimpos e também das casas dos próprios donos. São peças com memória, vividas antes de chegarem ali. O resultado não é um décor criado para foto, mas um espaço que já nasceu com alma e textura — madeira real, luz baixa, atmosfera íntima. Há personalidade — e ela é perceptível sem esforço.
Hospitalidade através da comida. Esse é um ponto que Edd preserva como eixo — e que define o Lambretta mais do que qualquer slogan ou frase pronta. Aqui, a hospitalidade não está no discurso, está no prato. Ela aparece na escolha dos ingredientes, na forma como o tempo da mesa é conduzido, na entrega de cada receita sem pressa, sem ansiedade de performance. É a hospitalidade italiana — não como serviço — mas como gesto gastronômico.
Encontro com o chef Edd Pereira — à frente da Lambretta que dá nome à casa. Foto: Tábita Gonçalves / Sabores & Destinos
Na cozinha, o Lambretta parte das receitas originais das nonas, em construção fiel de técnica italiana — domínio consolidado pelo chef que viveu em terras Europeias e traz esse repertório sem filtros. Os ingredientes vêm do território: uma queijaria regional trabalha queijos maturados em caverna na Serra do Bálsamo. A charcutaria artesanal local produz o guanciale utilizado na casa, e o suíno é fornecido por fazendas sustentáveis da região. É ligação direta entre tradição italiana e matéria-prima goiana real — não fusão, não efeito, mas coerência.
Nos antipasti, a carne cruda chega com gesto preciso: cortes milimétricos, textura delicada e tempero que respeita o sabor da proteína. Nada se sobrepõe. O prato se apoia na limpeza do paladar, no frescor e na acidez medida — resultado de técnica que não “mascara” o ingrediente, mas o revela. É entrada que prepara o território do que virá adiante, anunciando a intenção da casa desde os primeiros pratos.
Carne cruda com precisão de corte e equilíbrio de temperos. Foto: Tábita Gonçalves / Sabores & Destinos
O Bosco Nella Brace trabalha os cogumelos com calor e textura, oferecendo uma entrada vegetariana sedosa e delicada, com cremosidade evidente.
Bosco Nella Brace — cogumelos na brasa com acentos terrosos e textura quente. Foto: Tábita Gonçalves / Sabores & Destinos
Entre os primi, o Positanese se estabelece como carro-chefe do Lambretta. Maccheroni, linguiça de porco moura, creme de refogado, pomodoro, manjericão — e a burrata morna, que aqui não aparece no lugar comum de entrada (como ocorre nas cantinas tradicionais), mas como elemento central do prato.
Maccheroni Positanese — densidade, acidez e burrata morna finalizando o prato. Foto: Tábita Gonçalves / Sabores & Destinos
Nos secondi, a Tagliata mostra domínio de ponto: Angus rosado, fibra macia, suculência preservada.
Tagliata de Angus — rosada, suculenta e servida com brócolis alla gricia. Foto: Tábita Gonçalves / Sabores & Destinos
Os pratos chamam atenção pela generosidade — entrega sem perder precisão técnica.
Ambiente de mesa — luz baixa, materialidade e atmosfera íntima. Foto: Tábita Gonçalves / Sabores & Destinos
O Lambretta Cozinha Italiana estreia como casa que não interpreta a Itália de fora para dentro — mas a partir do essencial. Quando tradição e território se encontram, nasce uma cozinha que fala por si.
Lambretta Cozinha Italiana – Setor Marista, Goiânia – GO Cozinha italiana de raiz, com ingredientes regionais selecionados e fornecedores artesanais locais Rua 135-A, 187, Qd. 47, Lt. 50 – Setor Marista – Goiânia (GO)