Espumante brasileiro chega à Argentina e inaugura novo capítulo no vinho da América Latina
Por Tábita Gonçalves – jornalista de viagens e gastronomia, publisher de Sabores & Destinos
O espumante brasileiro cruza uma das fronteiras mais simbólicas do vinho no continente. A Miolo Wine Group exporta para a Argentina o Punto Final Moscatel — rótulo elaborado com uvas cultivadas na Vinícola Terranova, no Vale do São Francisco (BA) — e abre espaço em um mercado tradicionalmente fechado para espumantes estrangeiros.
O país vizinho já recebeu mais de 50 mil garrafas, em diferentes remessas, e novos envios estão previstos. A distribuição é feita pela Bodega Renacer, vinícola localizada em Mendoza e integrante do grupo — responsável pela chegada do produto a diferentes regiões argentinas.
A movimentação ocorre em um momento de transformação no consumo interno da Argentina. O país registrou a comercialização de mais de 37 milhões de garrafas de espumante em 2024 — volume menor que o do ano anterior — porém com avanço expressivo da categoria doce, que já representa parcela relevante do consumo nacional. Esse cenário abriu oportunidade para a entrada do moscatel brasileiro, conhecido pela leveza aromática e frescor.
A estreia oficial do Punto Final Moscatel no mercado argentino ocorreu em 22 de outubro, na Embaixada do Brasil em Buenos Aires, com presença do trade local.
O Brasil vive crescimento de relevância no espumante. Segundo dados de 2024 da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), o país aparece entre os maiores produtores e consumidores da categoria no mundo. A Miolo, que exporta para mais de 30 países, vem ampliando presença internacional. Em junho, realizou a maior exportação de espumante brasileiro para o mercado sueco, com 200 mil garrafas — rótulo batizado de Cuvée N°7 — agora disponível nas lojas do Systembolaget.
A chegada oficial do moscatel brasileiro à Argentina ressignifica a vitivinicultura latino-americana: é a primeira vez que o país vizinho recebe — comercialmente — um espumante moscatel produzido no Brasil.
Marca uma conquista técnica, comercial e simbólica — que amplia a presença da viticultura brasileira e aproxima ainda mais o país das conversas internacionais do vinho.
Por que o Vale do São Francisco consegue produzir espumante mesmo com clima semiárido?
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A região possui irrigação controlada — o que permite regular o ciclo da videira durante o ano.
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Por estar muito próxima à linha do Equador, o Vale do São Francisco consegue duas colheitas por ano — uma condição rara no mundo.
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O clima seco reduz a pressão de doenças fúngicas nas uvas, permitindo boa sanidade do fruto.
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A acidez necessária para espumantes é trabalhada a partir do momento da colheita — a uva é colhida no ponto ideal para manter frescor.
Resultado: clima quente não impede o estilo — ele exige manejo técnico.
E é exatamente nessa técnica que o Vale se destaca.